12 de abril de 2006

comer

O meu restaurante preferido é a Taqueria California. Um tasco ao pé de casa, literalmente um corredor com uma casa de banho manhosa atrás, uma jukebox que só passa reggaeton e los tigres del norte, e a televisão com talk-shows portoriquenhos sempre a bombar. Nas paredes, uns posters igualmente duvidosos, um deles com um carro americano, um gajo musculoso agarrado a uma gaja e a frase "Orgullo Azteca". Mas a comida mexicana é do melhor, baratíssima (come-se por 5 dólares) e o serviço impecável - é como estar em casa. Toda a gente é do mais simpático possível, com um sorriso honesto e tudo feito nas calmas, como deve ser - a comida chega logo, não a conta. Isto descobri que é impagável em Nova Iorque.
Há uma semana, como prenda de anos de mim para mim, fui jantar a um dos sítios da moda (ou já foi?), a Lever House, nesse mesmo edifício icónico de Nova Iorque, o Seagram em alumínio e vidro verde (é mesmo em frente). Nada de mais diferente. É preciso reservar e dar o nome a uma fúfia com sotaque francês. Quando se chega, dão-nos o lugar mais ranhoso, ao lado da caixa registadora, fruto do nome plebeu. Mas pronto, o espaço é incrível - é como jantar numa nave espacial. Entretanto, tentamos chamar a waitress, mas ela ignora-nos. Logo chega um gajo engravatado, desculpe, posso ajudá-lo? e a seguir - queria alguma coisa e ela não fez? tipo: esta vaca está aqui está na rua, se o senhor quiser. Depois, a minha bela companhia vai à casa de banho e lá está o personagem número três, desta vez uma mulher. As casas de banho são uma fila de portas sem identidade, num corredor escuríssimo. A mulher, aqui, acompanha o cliente à porta e diz-lhe: por favor tranque a porta. Mas não faz mais nada, rigorosamente. Ou seja, quando a jovem ia entrar, estava um senhor a mijar lá dentro. Please lock the door, sir.
No fim (a comida era boa, diga-se) trouxeram-me a conta sem lhes ter pedido nada. Olhei para a gaja com ar de carneiro mal morto, e ela - Ai quer café? desculpe. Vaca, levou a conta de volta e tornou a trazer. Nem vale a pena dizer quanto, mas uns bons dias de trabalho ficaram ali enterrados naquela noite.

O que vale é que quando cheguei de Washington, no dia dos meus anos à noite, a Taqueria estava aberta.

2 comentários:

Ss disse...

Fizeste anos e nao disseste nada?

ps - ainda nao consigo por o "til"...

Anónimo disse...

Mas valia teres ido ao "Brasserie" no Seagram - era mesmo em frente e aí ao menos, sabias com o que podias contar...